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Foram ao Inferno e voltaram

2015-06-01
 


 

Sofia, Hélder e Miguel são um exemplo de que é possível deixar a adição

 

Bateram no fundo. Perderam muito. Contraíram doenças. A droga levou-os à prisão, ao hospital. À prostituição. Após anos de consumo, achavam não ser possível recuperar, apesar de o desejarem. Mas conseguiram e são hoje novas pessoas, ainda a lidar com os fantasmas do passado

 

 

Sofia entregou a pessoa que era às drogas. Cedeu-lhe tudo. A adição retribuiu, dando-lhe também o máximo que podia. Inclusive viver na rua, psicoses, prostituição, prisão, hepatite C e o vírus do HIV. Um caminho sempre descendente. No seu caso, percorrido de forma galopante. "Quando se está a usar diz-se: eu fiz isto, mas nunca farei aquilo. E amanhã estamos a fazê-lo", sublinha a outrora aluna exemplar, desportista exímia, música e jovem responsável, agora com 35 anos, há quatro sem consumir.

 

O dia em que, numa viagem da escola, um professor lhe passou um charro, aconteceu-lhe numa outra vida, agora que afirma estar a viver uma segunda vez. Não existem drogas leves, avisa. Umas facilitam a passagem às outras. O consumo foi-se intensificando. A barreira do medo de experimentar estava quebrada e em pouco tempo estava a faltar às aulas, a perder o interesse por aquilo que sempre gostou de fazer, a isolar-se.

 

Tentou deixar. Não conseguiu. Uma e outra vez. Foi procurando sensações cada vez mais fortes e do fumar ao consumo intravenoso foi um passo. "Ao mesmo tempo que se tem medo, também se quer experimentar o mais forte de tudo. Sente-se em segundos, com muita intensidade", explica Sofia, discurso articulado, consciente do que foi, do que é e do que quer ser. Contudo, a voz treme-lhe ao reviver um passado obscuro que se prolongou por 15 anos, durante os quais viu morrer muita gente conhecida e outras desapareceram sem deixar rasto.

 

A consciência da recuperação


A certa altura já não tinha mais motivações para além das drogas. Desistiu da faculdade. Desaparecia de casa sem dar notícias. Para não ser confrontada ou dar explicações, saiu de casa e acabaria até por mudar de cidade durante um ano porque as doses eram mais baratas. "Tudo o que se metesse entre mim e as drogas era posto de lado. Escolhi viver na rua para não me atrapalharem o uso", conta.

 

Dormiu em casas abandonadas, jardins, parques, pensões. Às tantas, já não se reconhecia. Comer não era uma prioridade. O único pensamento era a única dose e o meio para o conseguir foram os roubos e a prostituição. "Fazia-me confusão devido à educação que tive, mas era algo que tinha de fazer. Tinha de estar muito drogada para o conseguir fazer. O fim valia a pena, porque o meu objectivo de vida era usar. Vivia para usar, usava para viver. Era o meu único interesse", recorda.

 

Fez três tentativas de recuperação. À terceira, foi de vez. Quando efectivamente se mentalizou e ganhou consciência da saturação a que tinha chegado. Sonhava com uma vida diferente, embora não imaginasse que se ia concretizar. Achava que ia morrer a tentar. A destruição de si própria e de tudo à sua volta levavam-na muita vez a pensar que seria melhor para todos se morresse. Excedia-se sem pensar nas consequências, com a secreta esperança de que uma dose seria letal. "No final do uso já tinha estado em hospitais, presa, já só me restava a morte. Depois, há outro caminho e ganhar consciência disso: a recuperação", frisa. "Pensei que já tinha sido escrava da doença em todas as suas vertentes", acrescenta.

 

“Clique” que lhe mudou a vida


Hélder tem 50 anos. Foi toxicodependente mais de metade da vida. Começou nos charros, passou para a cocaína e depois para a heroína. Na primeira vez que se injectou, apanhou hepatite C. Mas a sensação foi intensa. "É mais rápido. A gente vê logo o céu, que na verdade é um inferno", descreve. Emigrante na Alemanha, acabou preso por agredir uma pessoa. Quando saiu, regressou a Portugal e recaiu na heroína. Teve uma nova experiência, desta vez na Suíça, onde uma sobredose o deixou em coma. De uma aldeia do concelho, a Covilhã era a sua "cidade do Inferno". Cometia "insanidades". Ia para Espanha, metia-se com o carro no meio do mato e consumia durante dois ou três dias. Sem comer. Sem tomar banho. Sem pensar em mais nada. Mas foi sempre trabalhando. Picava-se antes de entrar ao serviço, para se conseguir aguentar. Os 1300 euros de salário só davam para uns dias. Era a mãe que o sustentava. Dava-lhe dinheiro para não ir pedir fora de casa. Muitas vezes, pagou-lhe as dívidas, sabendo para que foi usado o dinheiro. Era "um bicho". Companhias, só as do consumo. Conhecidos, "porque na droga não há amigos". 

 

Fez muitas tentativas para largar o vício. Chegou a tentar em casa, a frio. A mãe, ex-emigrante reformada, gastou fortunas. Hélder sentia um vazio quando ficava fisicamente desintoxicado, porque lhe faltava a sua "melhor companheira". Refugiava-se no álcool e invariavelmente recaía. O mais difícil, acentua, é "pôr a cabeça no sítio". Sentia ter perdido o domínio da sua vida há muito, mas não encontrava a porta de saída da câmara dos horrores em que se meteu. "Queria tanto deixar, mas tinha essa obsessão, que desperta a compulsão". Um adicto, enfatiza, nunca está satisfeito. "Um não chega, mil não é demais", diz.

 

Depois de tudo o que viveu, achou que nunca se ia conseguir recuperar. Quem o veja, lúcido, discurso fluente, convicto do percurso a fazer, empenhado na causa e com a preocupação de ser um exemplo para outros, não imagina o farrapo humano que já foi. Hélder é eloquente. Procura fugir ao calão do mundo das drogas, tal como dos ambientes e das pessoas do passado. Recorre com frequência ao uso de metáforas para ilustrar a dicotomia da sua relação com a heroína e a cocaína. Quando se entusiasma, parece um evangelizador. Só quebra quando fala do momento do "clique" que mudou a sua vida, há seis anos. A mãe ameaçava, suplicava-lhe que parasse. Mas foi numa conversa tranquila com a progenitora que percebeu ter chegado a hora de pôr fim à auto-destruição, depois de oito anos a arranjar desculpas e a adiar. Entregou-se "cegamente" ao tratamento dos 12 passos da comunidade terapêutica, para onde, desta vez, foi de mente aberta para absorver as ferramentas necessárias.

 

Buraco negro de 12 anos


Miguel tem 36 anos. Quando olha para trás, a sua vida é “um buraco negro” entre os 19 e os 31 anos. Começou a fumar “ganzas” muito jovem, passou a abusar no haxixe e isso levou-o “ao resto”. Fumou heroína com dois amigos, que nunca mais repetiram, mas Miguel não lhe resistiu. Às tantas, sozinho, passou a injectar. Ter carro era o garante de conseguir “orientar-se”. Dava boleia a quem ia comprar a Cuidad Rodrigo e pagavam-lhe com “pacotes”. “Ia a Espanha duas vezes por dia. Fiz cem mil quilómetros num ano”. Foi quando o carro avariou e deixou de ter acesso fácil à droga que se apercebeu como estava “agarrado”. Tentou várias curas. Recaía. Quando o pai morreu, imediatamente a seguir ao primeiro tratamento, depois quando a ex-namorada, uma “relação tóxica”, também faleceu. “Consumia para enterrar sentimentos, emoções, culpa”, analisa. Muito introspectivo por natureza, quando estava bem, pensava na família, para logo voltar ao mesmo. “Era um combustível para enfrentar a vida”, classifica. Passou por três internamentos. Apanhou sustos. Ficou em risco de perder o pé. Um dia, foi o dia de mudar de vida.

 

 

 

“A recuperação nunca está de férias, é diária”


O que é que faz um adicto parar? Depois de tantas tentativas, de se passar por tanto, de anos de apelos, o que provoca a mudança? “Não há uma fórmula mágica”, diz Miguel. No seu caso, saturou-se da “escravatura” e dos sustos. “Comecei a ficar cheio interiormente. O que as pessoas me iam dizendo tinha impacto interior, mas não a força para me fazer mudar. Para saires desta vida, se não é por ti, não resulta”, salienta. “Meti isso na cabeça, não foi por pressão exterior”, continua. Foi ao Centro de Atendimento a Toxicodependentes e pedi ajuda. A diferença, compara, é decidir enfrentar os problemas ou fugir deles numa anestesia com demasiadas contra-indicações.

 

Para Hélder, adicto durante 25 anos, são as pessoas “fracas e fragilizadas” que sentem a vontade de usar para não lidar com os problemas. Para um doente se tratar, percebe agora, “não se pode obrigar ou impor, só sugerir”. Desintoxicar o corpo é fácil, a mente é que é o grande desafio. “Estar limpo só não chega. É preciso estar sóbrio. Saber o que se está a fazer. Assumir a responsabilidade das consequências das insanidades”, sublinha. É também fundamental despir a pele “do coitadinho”. Rejeitar a autocomiseração. E a pessoa deixar-se ajudar para poder “pôr a cabeça no sítio”. “O problema é as pessoas desistirem delas próprias com facilidade”, considera.

 

A adição é uma doença “manhosa”, convém estar-se ciente disso, avisa Sofia. A abstinência só é possível “tomando a decisão de não voltar a usar, sem remorsos, sem culpas”. “Só ganhando consciência de que é um caminho que não tem nada para me dar, só a morte”, acrescenta, enquanto cruza os dedos das mãos, esticados, com a força necessária para não tremer. “Tomei a decisão de não mais usar drogas, sem reservas”, sintetiza. Não basta ter força de vontade, vinca. É preciso aliar a tal consciência.

 

“Fantasmas vão-me acompanhar sempre”


Abstinente há seis anos, Hélder tornou-se uma pessoa nova. Tenta manter uma forte participação cívica. Está envolvido em várias organizações. Nomeadamente o coro da igreja ou os Narcóticos Anónimos (NA), que vê como uma forma de mostrar gratidão pela ajuda recebida, ajudando também outros, enquanto continua a visitar o Centro de Respostas Integradas (CRI) da Covilhã.

 

Para Sofia, essa ajuda é imprescindível. Ter com quem falar de coisas que tanto a transtornam. Há assuntos que não se sente à vontade para abordar com os técnicos e outras que não se sente confortável em partilhar nos NA. No conjunto dos dois apoios, encontra o equilíbrio que às vezes sente a querer escapar. A antiga estudante de Desporto sente-se todos os dias a contrariar a sua natureza. “Todos os dias penso em drogas. Sonho com elas. Mas não ando obcecada. Os fantasmas vão-me acompanhar sempre. Atormentam-me”, diz, pacificada com o passado que lhe deixou marcas para sempre, também fruto das doenças contraídas.

 

Os programas de reintegração do CRI permitiram-lhe arranjar um emprego, uma casa, conviver com outras pessoas, falar de assuntos diferentes do único que preenche as conversas dos adictos. Reaproximou-se da família. Está a tentar recuperar laços quebrados. A sedimentar novas amizades, saudáveis. Sempre com a consciência de que não é possível curar-se, apenas estar abstinente. “Serei adicta até ao fim da minha vida”, sublinha. Até porque sabe, por experiência própria, que a cada recaída, nada volta ao início, mas ao sítio onde se estava, como uma vela que reacende.

 

Se enganar alguém, engano-me a mim próprio


“A recuperação nunca está de férias, é diária. É um treino mental feito diariamente”, acentua Hélder, que entretanto casou. Não se imagina a voltar à antiga vida. A desiludir quem o rodeia. Mas recusa-se a ser categórico. “Eu não faço juras nem promessas a ninguém, porque quando usava drogas, eu jurava a toda a gente e não cumpria. Agora sei que se enganar alguém, me estou a enganar a mim próprio”, vinca. E aproveita para deixar um conselho: “Um adicto inteligente em recuperação sabe pedir ajuda”.

 

Miguel está num patamar diferente. Toma medicação de substituição. Tem muitos fantasmas a assaltarem-lhe o pensamento. “As emoções que mandei para um canto vêm agora ao de cima. O cérebro começa a limpar e tenho de lidar com coisas que estavam arrumadas”, partilha. Consegue imaginar-se em situações em que poderia reincidir, mas não quer voltar ao mesmo. Diz nem sequer ter vontade de consumir. Falta-lhe encontrar um emprego, para não ser um peso para a mãe, só que não sabe se está preparado. “O mais difícil tem sido recuperar a parte social”. Um esforço que tenta fazer, sempre com a luz vermelha a avisá-lo que “as coisas podem voltar ao mesmo num instante” e que tem de lidar com o problema para toda a vida. 

 

 
Ana Ribeiro Rodrigues
 
Tags: Toxicodependência, adictos recuperados, Cebntro de Respostas Integradas da Covilhã, Narcóticos Anónimos, drogas
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