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«Sinto-me enganado [com o encerramento da Delphi]»

2010-07-28
 


 

Os funcionários foram surpreendidos com a notícia, a 31 de Dezembro, do fecho da empresa de cablagens da Guarda e receiam não encontrar emprego. Dia 24 o sindicato e a administração voltam a reunir para tentar um acordo em relação às indemnizações.

 

Recebeu a notícia no dia 16 de Julho, quando estava em casa a gozar a licença de parentalidade, após o nascimento do primeiro filho. Depois de 12 anos na Delphi da Guarda, onde nos últimos tempos assistiu a várias fases de despedimentos, foi surpreendido com a informação de que a unidade de cablagens, onde restam 321 pessoas, vai encerrar a 31 de Dezembro.

 

“Sinto-me enganado. Depois dos últimos despedimentos, em Março e Maio, foi-nos garantido que a fábrica tinha todas as condições para continuar a laborar”, diz Frederico Soares, de 34 anos, que trabalhava na área do controlo de qualidade. Lá dentro, estava numa função de topo, mas demasiado específica para poder ter utilidade fora da fábrica.

 

Agora revela-se “inquieto em relação ao futuro”.  “ Em Belmonte está mal, na Guarda está péssimo e na Covilhã também não está nada bom. O que perspectivo são dificuldades em encontrar trabalho”, receia. Voltar a estudar, para tirar o 12º ano é uma possibilidade.

 

“Fiquei muito decepcionado com a decisão da empresa. A produção baixou, mas neste momento a fábrica tinha trabalho”, sublinha o belmontense. “Durante anos consecutivos fomos a melhor fábrica da Delphi no País. Afinal o esforço não valeu de nada”, acrescenta Frederico Soares, desiludido por se ter optado por concentrar o serviço na unidade de Castelo Branco.

 

Até ao final do ano alguns funcionários albicastrenses terão formação com os empregados da Delphi na Guarda, para passarem a executar também as tarefas destes. “Agora é a parte psicológica. Vamos trabalhar até ao final do ano sabendo que a 31 de Dezembro a fábrica vai fechar”, frisa Frederico Soares, que apesar das garantias da direcção temia que este poderia ser o desfecho.

 

Reunião pata tentar acordo dia 24

A Delphi anunciou no dia 16 o encerramento da fábrica da Guarda, depois de entre Dezembro último e Maio já ter despedido 601 pessoas. Aos actuais 321 funcionários a empresa propôs o pagamento de dois meses de salário por cada ano de trabalho e a possibilidade de cem empregados serem transferidos para Castelo Branco, mas os trabalhadores não aceitam e, para já, ainda não há acordo.

 

Depois de um primeiro encontro entre o Sindicato das Indústrias Transformadoras e da Energia e a administração, as negociações foram suspensas. A nova reunião com a multinacional norte-americana ficou marcada para dia 24 de Agosto.

 

À Lusa Júlio Barreira, representante sindical, disse que os operários estão revoltados com o anúncio do encerramento da unidade, por entenderem que a empresa, ao longo dos anos “foi aparicada pelo Estado português, pelas instituições públicas, foram investidos milhões de euros e, agora, de um momento para o outro”, os responsáveis da empresa de cablagens para automóveis “pegam na tenda e vão-se embora”.

 

O sindicato reuniu entretanto com o governador civil e com o presidente da Câmara Municipal da Guarda, solicitando a sua intervenção no processo negocial. De acordo com o dirigente sindical Santinho Pacheco e Joaquim Valente prometeram pedir um encontro à direcção da Delphi.

 

O PSD da Guarda veio a público dizer que considera e encerramento da unidade um “tsunami laboral e social” e exige ao governo a adopção de pelo menos três medidas excepcionais, entre as quais a de que o Governo compre as instalações da fábrica para aí instalar logo de seguida um centro tecnológico com uma incubadora de empresas sujeitas a um regime de isenção fiscal.

 

Os sociais-democratas pedem também a reconversão profissional dos trabalhadores e facilidade ao crédito bancário.

 

A Câmara Municipal da Guarda reconhece que a decisão da Delphi terá “consequências dramáticas”. A Junta de Freguesia de São Miguel, onde a fábrica está localizada, exige respostas que minimizem os efeitos do encerramento. O Bloco de Esquerda acusa o Governo e a autarquia de terem mentido sobre a situação da unidade industrial e o PCP refere que se trata de uma “gravíssima machadada” no aparelho produtivo da região.

 
Ana Ribeiro Rodrigues
 
Tags: delphi, guarda,
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