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A Covilhã na Primeira Guerra Mundial

2010-07-21
 


 

De entre os acontecimentos que marcaram vincadamente a curta e agitada vida da Primeira República sobressai a participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial.

A afirmação do novo regime, as velhas alianças internacionais, a manutenção do império colonial, o posicionamento no Atlântico são alguns dos factores que levaram as tropas portuguesas a entrar no conflito.

 

A garra dos portugueses ficou bem assinalada nas trincheiras de França, onde as tropas lusas tiveram a sua intervenção num corpo de artilharia pesada.

 

Na Flandres Francesa foi valorosa a resistência portuguesa na batalha de La Lys assinalada no padrão de Portugal erguido En La Couture.

 

Também da Covilhã partiram tropas com destino à Flandres, o já então centenário Regimento de Infantaria 21, carregando com orgulho o peso de antigas vitórias, saiu da cidade da lã e da neve decidido a vencer.

 

A maior aventura destes soldados serranos ocorreu no “bosque misterioso”, a Ferme du bois, onde as tropas aliadas nada mais haviam conseguido do que derrotas.

 

No dia 9 de Março de 1918, o Capitão Ribeiro de Carvalho, comandante da 1ª companhia organizou um raid às fileiras alemãs. O comandante contava ainda com a ajuda dos alferes Henrique Augusto e Alípio Gonzaga. Pela calada da noite os serranos saíram das trincheiras e rastejaram até ao temido bosque, semearam a morte entre o inimigo e fizeram inúmeros prisioneiros de guerra. Os alemães foram obrigados a retirar perante a ousadia covilhanense, mas nem tudo foram facilidades, surgido do inesperado um alemão desferiu um certeiro golpe de baioneta no peito de alferes Gonzaga. Desfalecido, mas num supremo arranque de coragem, o alferes abateu o inimigo utilizando a baioneta que o ferira. Perante tal exemplo os restantes companheiros empreenderam eles semelhante luta e conseguiram mais seis prisioneiros.

 

O feito valeu aos intervenientes a respectiva promoção e ao batalhão a honra de ver a bandeira condecorada com a medalha da cruz de guerra.

 

Mas não foram somente os autores deste raid os únicos covilhanenses a destacarem-se neste conflito. Um outro nome que durante muito tempo perdurou na memória dos covilhanenses, nem sempre pelos melhores motivos, foi o de Garri. José Antunes de Garri, de seu nome completo, era um soldado corneteiro.

 

O seu apurado ouvido musical permitia-lhe captar os toques do clarim alemão que posteriormente executava na perfeição. Desta forma foi possível iludir o inimigo fazendo soar o toque da retirada.

 

A faceta valeu-lhe a mais elevada condecoração militar, a Torre de Espada. Porém vítima das atrocidades da guerra química alemã, segundo uns, ou mais provavelmente vítima da indiferença dos seus conterrâneos, Garri caiu na banalidade das atitudes e na dependência do álcool que o levava a exibir-se em frente ao quartel e a exigir continências repetidas dos seus camaradas e superiores.

 

Acabou por ser despojado das suas insígnias e recordado apenas por troça.

 

Um final inglorioso para um soldado que vencera a batalha usando somente um clarim.

 

Muitos outros soldados covilhanenses mereciam aqui ser recordados, a Covilhã homenageou-os através do reconhecimento público manifestado em 8 de Março de 1925. Na data vários regimentos da 7ª divisão participaram nas cerimónias presididas pelo General Alves Pedrosa. Do programa constou ainda o lançamento da primeira pedra do monumento que hoje podemos encontrar no jardim público de S. Francisco. Cabe agora a cada um de nós, perpetuar a coragem destes soldados que souberam honrar o nome da sua cidade.

 
carlos madaleno
 
Tags: opiniao, covilha,
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