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Esperar por milagres

2010-07-07
 


 
Não há comprimido que nos acuda

A senhora A entrou no consultório num fim de tarde, quando as várias vozes do dia já começam a fazer um sussurro no fundo das coisas. É difícil de explicar, mas doentes mais preocupantes, mais tristes ou com situações mais graves acompanham-nos e vemo-los de novo em cada outro doente que se aproxima - ou porque a história tem pontos idênticos, ou porque são da mesma terra ou porque, não tendo nada parecido, se parecem. Daí, fazerem como que um pano de fundo nos outros acontecimentos, dando-lhes cores distintas conforme os casos. No dia da senhora A, tinha-me despedido de um doente; ambos sabíamos que não nos íamos voltar a ver porque ele tinha uma doença muito grave e estava pior. Se calhar por isso não consegui de imediato perceber o problema da senhora A, da senhora dona A, como me corrigiu - “que as senhoras portuguesas estão todas a caminho de perder o dona, sabe. É um País de doutores, todos os licenciados e mesmo os que o não são, são doutores, mas as senhoras passaram a senhoras só. Como se o não ter canudo representasse uma perda de dignidade, ou o ser-se senhora dona fosse uma marca dos fascistas e vai daí , passa tudo a senhora ou a você, que o que é bom é nivelar por baixo…”

 

Era uma senhora gordinha e com uma cara simpática, mas o discurso era veemente, e a senhora estava a agitar-se com a história, por isso esforcei-me por me concentrar e conseguir perceber porque me procurava. De facto andava muito nervosa, mas tinha imensa razão pois umas histórias de partilhas com uns primos tinham-na deixado sem dormir dois dias seguidos. “Os primos eram…” – e seguia-se uma série de epítetos que não vou reproduzir. Ia pôr tudo em tribunal, “mas com a justiça que temos, a doutora sabe…“ e, no dia anterior, a caminho da praça tinha ficado sem saber onde estava. Assim, sem saber. Sentou-se num banco a olhar pasmada para tudo, veio uma senhora que não sabia quem era e que a achou mal e a levou à urgência. “Ainda há gente boa, mas agarrei na carteira com as duas mãos, nunca fiando…” E lá pareceu-lhe que acordou porque de repente já se lembrava de tudo e o médico que a viu disse que eram nervos e mandou-a para casa.

 

A senhora dona A. sabia o que eram nervos - “Fui sempre muito nervosa, doutora”- mas aquilo não era normal. E tinha vindo para eu ver se percebia melhor a coisa. No exame neurológico não havia nada de especial, mas a tensão arterial estava a 170-100mmHg. Não sabia se era sempre assim ou se tinha elevações dos níveis de colesterol ou diabetes, tinha lá tempo com as partilhas de andar a fazer análises. E era obesa “- mas não me peça para emagrecer , que eu gosto muito de me ver assim… Só tem que me arranjar um comprimido para eu ficar boa e pronto.”

 

 

Esta do comprimido para resolver problemas tem muito a ver com uma certa falta de qualquer coisa de que eu não sei o nome e que abunda no povo português. Facilitismo? Preguiça? Infantilidade? Esperamos pelo comprimido milagroso para resolver a doença, pelo político milagroso para resolver a crise, pelo patrão milagroso para nos dar trabalho. Até somos capazes de rezar para que as coisas aconteçam, mas parece que não percebemos que sem remar para a praia, sem tomarmos atitudes individuais, sem nos assumirmos e tentarmos com trabalho e esforço resolver a situação, não há comprimido nem político nem Deus que nos acuda.

 

A senhora teve um quadro de amnésia global transitória que, após vários exames, pareceu resultar de uma insuficiência vascular cerebral de curta duração e com provável origem numa crise hipertensiva que se teria já repetido. Foi aconselhada a mudar o estilo de vida, a comer sem sal, a fazer exercício e a evitar chatices - nomeadamente a tal história das partilhas. De tudo, fixou o comprimido para a tensão e o anti-agregante para evitar tromboses. Tenho muitas dúvidas que a senhora tenha mudado de vida e, não sendo tão bruxa como alguns dizem, não lhe vejo grande futuro.

 

Não sei se o País e o Povo Português mudarão alguma vez.

 
Assunção Vaz Patto
 
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