Pinho considera que ideais de Abril estão a ser traídos

Covilhanense lembra dias de euforia no Abril de 74 na Covilhã

 

 

Uns foram informados de madrugada que a revolução estava na rua, outros só pela manhã, por telefone ou através da rádio. Às 10h do dia 25 de Abril de 74, já um grupo de oposicionistas da Covilhã estava reunido no Pelourinho, no edifício do Solneve, no escritório do advogado Antunes Ferreira, com o intuito de formar uma lista para a Comissão Administrativa que iria gerir a Câmara Municipal da Covilhã até às primeiras eleições livres democráticas, ganhas por Augusto Teixeira, com as cores socialistas.

“Reunimos logo porque na Covilhã a oposição estava viva, apesar da repressão”, comenta José António Pinho, antigo membro do PCP, prisioneiro político e um dos elementos presentes nesse encontro, recentemente dedicado à escrita de livros sobre a memória da luta pela liberdade.

“A Câmara da Covilhã foi uma das primeiras do País a ser destituída”, recorda o empresário. Foi no dia 26. O grupo dirigiu-se aos Paços do Concelho, onde já era aguardado pelo presidente do município, Jorge Craveiro. Informou que em nome do Movimento Democrático Português (MDP) se preparava para ocupar a autarquia, com o apoio do Movimento das Forças Armadas (MFA). “Não houve nenhuma resistência”, lembra Pinho. Nem na câmara nem em outros locais, “porque a maioria das pessoas da União Nacional não o eram por convicção, mas por receio”.

No dia seguinte, a 27 de Abril, o Pelourinho assistiu a uma manifestação, quando a comissão administrativa foi saudada na varanda dos Paços do Concelho, na presença de um oficial do MFA, em “alvoroço”. O industrial dos lanifícios Luís Filipe Mesquita Nunes ficaria a liderar os destinos do concelho até à eleição de “Teixeirinha”. A lista, nota José António Pinho, era constituída por gente de vários quadrantes, até porque “a oposição eram todas as pessoas que lutavam pela liberdade e pela democracia”, independentemente de filiações ou simpatias partidárias.

1º de Maio apoteótico

Foram dias de euforia os que se viveram na Covilhã, concelho onde a oposição à ditadura em que se vivia tinha intensa actividade, sobretudo na cidade e no Tortosendo. Os momentos que se viveram culminaram com aquela que Pinho diz ter sido a maior manifestação realizada na Covilhã, o 1º de Maio, assinalado no Jardim Público, na presença de largos milhares de pessoas.

Foi a explosão do que antes era reprimido, revive o antigo militante comunista, distribuidor do “Avante!” e da carta do bispo do Porto, que despertou para a política quando foi “tocado” pela visita do General Humberto Delgado à cidade, durante a campanha para as eleições presidenciais de 1958. Uma deslocação que culminou com uma carga policial sobre a multidão que lotou o Teatro-Cine e se estendeu pela rua.

José António Pinho sublinha o intenso movimento da oposição na Covilhã, fosse através de actividades ilegais, como era o caso da distribuição de propaganda, ou nos períodos de escassa liberdade, a cada quatro anos, durante as pseudoeleições com os resultados viciados à partido, onde se faziam comícios em que a contestação à guerra colonial era tema obrigatório e unificador. “Apesar de estar sempre um graduado da PSP a vigiar, nós enchíamos sempre os cinemas, a UN não”, frisa o empresário.

Fora desses períodos, os cafés Leitão, Central e Danúbio eram local de discussão em torno dos temas publicados no “República”, jornal de referência. E os eventos promovidos por colectividades eram aproveitados para mobilizar para a contestação à ditadura de Salazar, que se pensou ser Primavera com Marcelo Caetano.

“Traição aos ideais de Abril”

Pinho acentua que a Revolução dos Cravos foi o culminar de um descontentamento efervescente do povo, motivado pela guerra, pelas más condições de vida, pela repressão, censura, pelo conservadorismo. “Muita gente do regime sabia que o Governo estava podre”, realça. Daí o pacifismo da revolução, feita com “ética e moral, sem vinganças”.

José António Pinho diz que a tortura e os sacrifícios valeram a pena, embora considere que actualmente se verifica “uma traição nítida aos ideais do 25 de Abril”. Mas rejeita a ideia de ser necessária uma nova revolução. “Basta recuperar esses ideais, de generosidade, de melhoria das condições económico-sociais e amor”, salienta o antigo candidato do MDP/CDE, para quem é fundamental assegurar o Sistema Nacional de Saúde, a educação e um sistema social que permita às pessoas envelhecer com dignidade.

Impresso a 2019-03-21 às 16:31:31